Wednesday, August 25, 2010

A verdade por trás do sorriso..

"Eu via a roda girando e girando e longe e, às vezes, tão longe que eu não me importava; até o dia em que eu percebi que as pessoas que saíam de lá traziam um sorriso no rosto. Passei dias observando o girar daquela roda. Dias me encantando com as luzes que a cercavam e com o movimento que ela fazia. Dias inteiros - senão meses. E então, no meio de uma coragem súbita, decidi rodar também. Entrei para roda. Roda gigante, brilhante, produtora de sorrisos fáceis. Eu quis ver o mundo girar. E agora estou aqui. Rodando e rodando e longe, muito longe, do chão. Eu quero sair, quero fazer a roda parar para que eu desça. Quero deixar de rodar com a roda, mas eu não consigo. Olho para os lados e as pessoas estão sorrindo e, eu não entendo o porquê de tanto fingimento. A moça de preto, que não para de me olhar, chegou a chorar de tanto desespero, eu vi. Eu juro que eu vi. Mas quando os olhares a cercam ela escolhe o sorriso mais bonito e coloca no rosto. Às vezes eu acho que é tudo uma armação para fazer a gente entrar na roda, noutras penso que aquele fingimento é a única verdade absoluta que a cerca. Colocar um sorriso no rosto, mesmo sofrendo, não deve doer tanto quando essa é a única coisa que está ao seu alcance. Eu olho para o lado, meio sem jeito, com medo de mostrar meu pavor, e ainda encontro o rapaz que me encorajou a entrar. Ele segura a minha mão às vezes, noutras ele segura, fortemente, a mão da moça de preto. Deve ser por isso que ela me olha tanto. Acho que antes, da minha coragem aparecer, a atenção do rapaz, encorajador, era só dela, apenas ela segurava as mãos quentes que acalmam. Agora ele, gentil, se divide em dois. Se divide e se diverte. O sorriso nunca o abandona e eu o vi, durante aqueles dias, sair sempre com um sorriso nos lábios. A moça de preto eu só conheci quando entrei. E foi então que eu entendi como a roda gira. Eu nunca tinha a visto porque ela jamais saiu daqui. As pessoas que conseguem sair saem felizes. As tristes, não. As tristes ficam. E elas não ficam apenas por serem tristes, muito pelo contrario: elas ficam tristes por não conseguirem sair. Eu olho para o rapaz. Eu olho para moça. Eu penso em contar a ela sobre minha vontade de voltar para casa, imaginando que ela me ajudará ao saber que eu, enfim, sumirei e o rapaz voltará a ser só dela. Me calo. As mãos dele estão nas minhas e eu sinto aquela coisa que eu ainda não sei nomear, mas que, com empenho, me emudece. Eu vejo alguma verdade, qualquer uma, escondida naqueles olhos. Ele pede, num gesto, que eu fique. Pede para eu ficar por perto, para eu permanecer aqui. Eu acredito. Eu fico. Me sacrifico apenas por saber que as mãos me acalmarão durante o desespero. Sem que eu pudesse evitar, passei a olhar, descaradamente, para moça. Ela deve imaginar, como eu imaginei, que a olho única e exclusivamente por ciúme do rapaz. Ciúme: é essa a palavra-chave - senão o sentimento. Mas eu sei, eu sei que não é apenas isso. Não há só isso. Eu tento me encorajar a deixar tudo para trás, tudo de lado. Tento imaginar o quão felizes eles poderão ser se eu descer da roda. Se eu desistir de tudo. Se eu soltar essa mão que, no momento, parece ser a coisa mais importante que eu tenho. Às vezes, no ápice da loucura, eu tento convence-lo a fazer a roda parar de girar, mas ele não quer e eu, por mais triste que seja admitir, o entendo. Esteve tanto tempo parado, tanto tempo com os pés cravados ao chão. É encantadora a maneira como ele segura minha mão e pede pra eu ficar. Seria ideal se, talvez, eu fosse à única a conhecer o calor daquelas mãos. Os dias passam e eu descubro as pessoas que o cercam. Há outras moças; muitas. Moças que ele acalma enquanto eu durmo; e há uma, única, que ele deixou no chão - a mais importante, talvez, a que faz que com que ele pare de girar com a roda. Ele pede para que todas fiquem, eu sei. Ele não desiste de nada e não quer sair da vida de ninguém. Às vezes eu finjo que durmo só para vê-lo tocar uma das desconhecidas. Em noites assim eu choro, baixinho para que ele não me ouça, e ao fim do choro não encontro o verdadeiro motivo. Não sei se choro por não conseguir deixar a roda, e seguir em frente, ou por saber que quando a roda parar, de fato, ele voltará e encontrar a única que realmente importa. Talvez eu queira ser importante. Acho que por mais que eu queira não há como abandonar essa roda que não para. Não ainda. Não agora. A roda gira e gira e me leva para longe, às vezes para tão longe, que eu me desconheço. Passo o dia esperando os minutos da atenção direcionados a mim e qualquer sentimento inesperado me faz correr de encontro aos braços dele. Eu não sou assim. Eu não quero ser assim. Mas parece que quanto mais a roda gira, mais eu me torno aquilo que eu não gostaria de ser. Eu tenho tanta vontade de pular daqui, de me jogar de encontro ao chão e, de lá, dizer que dessa vez ele perdeu que eu venci que eu consegui sair da roda sozinha que eu estou feliz e que ele... Ele perdeu a chance de entrar pra história. Essas coisas são rápidas, entende?Quando a porta se abre você tem que estar pronto para entrar. Estou procurando a chave para trancar minha porta, mas parece que, de propósito, só vasculho os lugares errados. Tenho medo de trancar a porta e me arrepender. Tenho medo de deixá-lo do lado de fora. Tenho pena. Tenho amor. Talvez o amor seja a roda gigante; girando, e girando, distribuindo os papeis - triste e feliz - dentre os participantes. Talvez eu tenha inventado a roda para arrumar uma desculpa para amá-lo de alguma maneira. Talvez tanta coisa, telespectadores. A moça de preto me olha cada vez mais de perto e o rapaz me veste de tanta confusão que eu não posso lhe dizer se está perto ou longe, dentro ou fora. Mas garanto, senhores: ele está! E ele fica. E ele não quer ir embora e eu não quero, de jeito algum, que ele se vá. No fim de tudo acho que eu voltarei para o chão e encontrarei aquele que eu deixei; meu único, minha insegurança mais segura. Acho que meu medo não deixará que eu o impeça de ir de encontro ao passado que ele tanto sente falta. Talvez ele nunca tenha se desgrudado do passado. Talvez ele ame, arduamente, a moça de preto. Mas eu sei, meus senhores, eu sei que no fim eu vou encarar a verdade: a roda gigante jamais existiu."


Ps.: Desde a primeira vez em que li esse texto, no Blog: Arlequim ,senti como se tivessem escrito palavras das quais eu nunca disse, como se eu tivesse sido decifrada por um instante. E jamais pensei que o que se passa para comigo, para com minha vida poderia estar fazendo parte da história de um outro alguém. Então divido esse texto divino com vocês, meus queridos leitores, e quando puderem, visitem o blog da autora do texto, beijos! ;]

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